CARGA

November 16, 2018 Bruno Laborinho

Interpretações interessantes numa narrativa desiquilibrada

Fui assistir, por mero acaso do destino, ao filme CARGA de Bruno Gascon. Aparte de algum mediatismo (muito do qual soube a partir do meu colega JP Caldeano, que é Diretor de Fotografia nesta produção) que gira sobre o filme pouco mais sabia do mesmo.

CARGA é um filme muito sólido no seu todo, mas sofre de um problema que acho está a acontecer em alguns filmes portugueses recentes: um deslumbre pelo estilo/técnica mais “americanizados” que causa um desiquilibrio narrativo.

Sem contar a trama – porque nunca será esse o meu propósito – o estilo visual do filme e as poderosíssimas interpretações de grande parte do elenco parecem ter encantado o realizador já que a primeira metade do filme não tem praticamente evolução na narrativa. CARGA simplesmente estagna, torturando o espetador dentro do ambiente decrépito e arrepiante que o filme nos apresenta. Ele fica a sorver daquelas imagens, daqueles espaços, daquelas interpretações e vai de cena para cena… Mais e mais… Mas história não avança. Ficamos ali, a aguardar (e a sofrer, bastante, com toda aquela imagética torturante) sem que nos contem, afinal, a história das pessoas que estamos a ver. Não há ligação… Só exposição de pura crueldade.

É clara uma intenção do realizador neste jogo de tortura mas gastar toda uma metade do filme nele geraram problemas que, em último caso, acabaram por prejudicar o próprio ritmo do filme.

Se até ao intervalo não há ritmo, na segunda metade, tudo parece acelerar. Piscamos os olhos e – puf! – já tudo mudou. De repente está tudo a cair! As histórias dos personagens são contadas à pressa (aparecem algumas desilusões pelo caminho com algum do elenco – querem saber… vao ver!) e a Narrativa acaba por sofrer dos chamados “plot holes”.

E há alguns clichés. Lá temos de ter novamente a Rita Blanco em traje rural, a rezar o terço – não existe outro retrato do Portugal rural que não seja uma avé-maria, uma sopa, uma casinha velha e fazer crochet frente à TV? É bonito. Eu gosto de ver… mas já cansa. E o resto? E as outras realidades, mais atuais, do Portugal interior.

Já disse, mas repito: as interpretações são fenomenais, nisso tiro o chapéu! CARGA não tem papéis fáceis – a temática é muito difícil e a linguagem é crua e fria como os cantos húmidos dum beco sombrio, numa grande cidade. Dá para o sentir!

A Cinematografia: uau.
Confesso que é um estilo que eu gosto, bem escuro, apertado, sombrio. O Diretor de Fotografia JP Caldeano não me surpreendeu. Há ali um plano meio esquesito e um ou outro que, de tão escuro e longo que estava, deixou-me frustrado por não haver qualquer leitura (nem qualquer benefício para a performance do ator Vitor Norte ou para a cena). Mas em geral, gostei muito! A Direção Artística e os sets trabalham muito bem a favor da Cinematografia do JP, mas ele também soube tirar toda a energia e intensidade dos espaços onde se encontrava. Definitivamente o set do hospital abandonado (ou lá o que era aquele edifício) era o mais interessante de todo o filme e não me importava nada que a história não saísse dalí.

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CARGA (2018 / PORTUGAL)